Muro que separa católicos e protestantes é marca da história em Belfast, na Irlanda do Norte

A senhora e seu gato nos olharam desconfiados e se apressaram a entrar em casa, passando pelas grades do portão e certificando-se de que haviam chaveado bem a porta. A tarde estava caindo e não era comum que estrangeiros andassem próximo aos muros àquela hora. Logo eles estariam fechados em nome da paz. A senhora e seu gato protestantes não poderiam comprar o pão católico do outro lado do muro e o padeiro nunca poderia afagar o gato da vizinha que havia escolhido uma fé diferente da sua.

A divisão havia ganhado o nome de Peace Wall, sendo apenas uma das muitas estruturas do gênero na cidade. Erguida com a intenção de preservar vidas, ela também não se importa em separá-las e já foi bastante associada ao muro de Berlim. Talvez, a principal diferença entre as duas construções seja que os muros de Belfast ainda existem. Não contentes em apenas separar, eles também são o veículo usado por militantes de ambos os lados para expressar suas visões políticas ou mesmo narrar fatos relacionados à história da Irlanda do Norte através da arte.

Murais de Belfast, na Irlanda do Norte

É na parte oeste da cidade que os murais mais famosos se localizam, próximos a uma das 99 “barreiras de segurança” identificadas pelo Belfast Interface Project. As primeiras de que se tem registros surgiram em 1969. Os murais, dizem, começaram a aparecer nos anos 70. Desde então, mais de 2.000 já foram pintados na cidade, expressando os mais diversos pontos de vista.

Peace Wall, em Belfast - Irlanda do Norte

Ao observá-los, uma verdadeira aula sobre os conflitos ocorridos recentemente no país. De um lado, um grupo católico que busca a separação do Reino Unido para posterior união da Irlanda do Norte com a vizinha Irlanda, unificando a Ilha da Esmeralda. Dentre eles, o famoso Exército Republicano Irlandês, o IRA. Do outro, protestantes a favor da permanência sob o domínio da rainha.

Direito à língua é um direito humano

Para além das desavenças religiosas, um mural salta aos olhos. “Direito à língua é um direito humano”. Está escrito em inglês. Quase um grito de socorro de um povo que foi aos poucos esquecendo o gaélico, seu idioma original. O escrito, assim como pedidos de paz e reproduções de figuras de pessoas que morreram de ambos os lados lutando por seus ideais, se encontra em meio às grades, completamente preso, como aquela senhora que já havia acompanhado durante a vida tantas mudanças no país.  

Mural encontrado em Belfast

Eu poderia apostar que ela viu incrédula os conflitos entre católicos e protestantes se agravarem nos anos 60 e talvez fosse ainda jovem quando ergueram aquele primeiro muro, ao lado de sua casa. É provável que tenha ouvido pelo rádio a notícia das mortes dos 14 militantes católicos assassinados durante o Domingo Sangrento em Derry (cidade que ela e os que estão de seu lado do muro chamam de Londonderry), e que tenha também perdido as contas de todas as mortes ocorridas até o anúncio do cessar-fogo, em 1994.

Talvez ela não tenha se importado com o fato de que o fogo, na verdade, nunca cessou. Do alto de suas muitas décadas de vida, ela invejou a Escócia que votou em conjunto pela permanência no Reino Unido pouco antes de que o mesmo Reino Unido votasse a favor de sua separação do restante da Europa. E, quem sabe, ela ainda sonhe em conhecer pessoalmente a rainha, que testemunhou exatamente as mesmas coisas, pensando provavelmente as mesmas coisas, embora nunca tenha conhecido um muro.

Mural em Belfast


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Apaixonada por contar histórias, trabalha com conteúdo desde 2010. Depois de viver na Argentina, Irlanda e Romênia, percebeu que poderia carimbar o passaporte mais vezes caso trabalhasse remotamente. Hoje vive em Porto Alegre, onde nasceu, e não precisa mais pedir folga para viajar. Também trabalha como redatora para os sites Hypeness e Quanto Custa Viajar.

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